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Política

Policial, heroína e agora deputada de um Brasil que teme por sua segurança

Mauricio Sumiya/Futura Press/Folhapress
kátia sastre Imagem: Mauricio Sumiya/Futura Press/Folhapress

Da AFP, em São Paulo

24/10/2018 14h06

Três tiros mudaram a vida da policial Katia Sastre. Com os disparos, matou um assaltante na porta da escola de sua filha. O impressionante vídeo que a mostra em ação foi usado na propaganda eleitoral e ela se tornou uma das deputadas mais votadas do país.

Mais de 264 mil pessoas confiaram à PM de 42 anos, que, usando seu uniforme, assegurou na propaganda eleitoral: "Atirei e faria de novo. Coragem eu tenho".

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No vídeo, vemos a cabo de porte mignon, usando uma blusa cor de rosa, sacar da bolsa uma pistola para atirar e abater o ladrão, entre os gritos das mães e das crianças.

"Eu não fico feliz pelo fator morte, que, na verdade, não é o que a gente quer. A gente quer paralisar aquela agressão injusta do bandido. Mas eu fico feliz por ter salvado pessoas de bem", declara a 15ª deputada mais votada do Brasil em seu escritório em Suzano, na área metropolitana de São Paulo.

Tudo aconteceu muito rápido para a arquiteta que sempre quis ser da Polícia Militar, assim como seu bisavô, seu pai e seu marido.

Na PM há 20 anos, Katia estava levando sua filha de 7 anos à festa do Dia das Mães no colégio quando surgiu um homem apontando sua pistola contra uma das outras mães com intenção de roubá-la. Katia reagiu imediatamente, com precisão, e, segundos depois, o ladrão estava ferido de morte com dois tiros no tórax e um na perna.

O bandido de 21 anos morreu no hospital. E Katia já tinha virado uma heroína.


"Quando eu cheguei na delegacia, as pessoas me ligaram, me dando parabéns porque tinham assistido ao vídeo. E eu falei: que vídeo?", recorda, sorridente.

Onda militar 

Em um Brasil obcecado por segurança e ligado nas redes sociais, sua história era de ouro puro e, no dia seguinte, o governador de São Paulo prestou uma homenagem a ela, enquanto seu telefone não parava de tocar.

Brasília acabara de descobri-la e ela recebia ofertas de quase todos os partidos, que viam nela uma mina de votos em um país aparentemente crente que pessoas usando uniformes seriam a cura para a violência, a decepção e o medo.

O novo Congresso terá 35 parlamentares que foram ou são militares ou policiais, o dobro que antes destas eleições que, segundo as pesquisas, designam como futuro o capitão do Exército Jair Bolsonaro.

Apesar de ter gravado um vídeo com o candidato de extrema direita e apoiá-lo no segundo turno, Katia optou disputar as eleições pelo conservador Partido da República.

Considerando que a propaganda incitava à violência, dois partidos de esquerda conseguiram retirar o vídeo do ar por alguns dias, mas a justiça acabou dando a razão para Sastre.

A mãe do falecido - que tinha histórico de roubo e ocultação de cadáver - está pedindo uma indenização de R$ 477 mil pelos danos morais causados pelas imagens. Mas Katia afirma que não hesitaria em usá-las novamente.

"Eu as utilizei para mostrar o que acontece no dia a dia das pessoas, a violência que todo o mundo passa", explica.

Militar graças a Deus

Sastre é a favor da liberalização do porte de armas - como Bolsonaro - e descarta que essa medida possa aumentar o número de assassinatos, em um país que, no ano passado, registrou um recorde de 63.800 homicídios.

"Quem é mau: traficantes, ladrões... já estão armados e muito bem armados. Melhor até que a polícia. Para quem a gente vai liberar o porte de armas é para os cidadãos do bem, para que se defendam", argumenta.

"A população não aguenta mais, por isso tantos militares agora na política para tentar resolver parte do que está acontecendo", acrescenta.

Mesmo que isso implique votar em um candidato abertamente machista, como é o caso de Bolsonaro.

"Eu acho que muita coisa é montagem. Assim como ele é contra o feminismo, eu também sou contra o feminismo (...) Tudo o que eu consegui fazer, eu fiz, e eu fiz muito bem. Então eu não tenho porque ser feminista e achar que as mulheres tem que se unir para conseguir alguma coisa. Não! Você quer fazer, você vai fazer...", enfatiza.

Ela diz que nunca se sentiu discriminada, apesar de integrar um batalhão com apenas 16 mulheres para 320 homens.

Depois de 21 anos na PM, agora está prestes a entrar na reserva para começar uma vida que há seis meses não poderia imaginar: a de deputada federal.

"Mas militar você é para sempre, graças a Deus!", conclui.