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Violência contra a mulher

Francês do escândalo do Nobel julgado na Suécia por acusações de estupro

AP
Jean-Claude Arnault Imagem: AP

Da AFP, em Estocolmo

19/09/2018 12h46

O julgamento de um francês importante no mundo cultural da Suécia acusado de dois estupros, revelados em pleno movimento #MeToo, começou nesta quarta-feira (19) em um tribunal de Estocolmo, com o Prêmio Nobel como pano de fundo.

Jean-Claude Arnault, 72 anos, casado com uma integrante da Academia Sueca que concede desde 1901 o prêmio Nobel de Literatura, não fez nenhuma declaração ao chegar ao tribunal, "rejeita as acusações", anunciou aos juízes o advogado de defesa, Björn Hurtig.

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Como acontece com os casos de agressões sexuais, o tribunal determinou que a audiência aconteça a portas fechadas, sem a presença de jornalistas.

A vítima dos dois estupros, que não teve a identidade revelada, é representada por Elisabeth Massi Fritz, advogada sueca especializada na defesa das mulheres.

Arnault foi uma personalidade influente do mundo cultural em Estocolmo até o escândalo provocado pelo caso do produtor americano Harvey Weinstein.

O Foro, um clube muito seleto dirigido por Arnault, era visitado por toda a 'intelligentsia' de Estocolmo. Várias jovens, fãs de literatura, tentavam, entre uma apresentação de jazz ou uma leitura de Proust, se aproximar de um editor ou um escritor famoso.

Um mês depois das acusações, em outubro de 2017, de estupros e abusos sexuais contra o produtor Harvey Weinstein, o jornal Dagens Nyheter (DN) publicou os depoimentos anônimos de 18 mulheres que afirmaram ter sido agredidas ou assediadas por Jean-Claude Arnault.

O escândalo provocou um terremoto na Academia, instituição com a qual Arnault mantinha estreitos vínculos artísticos e financeiros.

Uma investigação interna demonstrou que várias acadêmicas, ou esposas e filhas de acadêmicos, também sofreram com a "intimidade não desejada" e os comportamentos "inapropriados" do acusado.

Arnault é acusado por dois estupros contra a mesma demandante. Ele pode ser condenado de dois a seis anos de prisão.

Intenso medo

Em 5 de outubro de 2011, em um apartamento de Estocolmo, Arnault obrigou a mulher a uma "relação oral" e depois a uma penetração vaginal, quando a jovem se encontrava em "estado de vulnerabilidade e de intenso medo", o que a impediu de defender-se, afirma o documento de acusação consultado pela AFP.

Os atos teriam se repetido na madrugada de 2 para 3 de dezembro de 2011, no mesmo apartamento, quando a vítima dormia.

Parte da investigação preliminar aberta contra Arnault por outros supostos estupros ou agressões sexuais cometidas entre 2013 e abril de 2015 foi arquivada, por falta de provas ou prescrição.

A escritora Elise Karlsson, uma das mulheres a falar com o jornal DN, trabalhava com o francês em 2008, quando afirma ter sido assediada.

"Senti as mãos deles nas minhas nádegas. Em nenhum momento havia mostrado interesse. Estava em choque", afirmou à AFP no ano passado.

"Eu disse: 'não toque em mim' e dei um tapa, antes de fugir. Ele veio na minha direção e afirmou que eu nunca encontraria um trabalho".

Academia de ruínas

De acordo com o jornal Svenska Dagbladet, Jean-Claude Arnault nasceu em 1946 em Marselha (sul da França), filho de refugiados russos. Ele teria se mudado para a Suécia nos anos 1960 para estudar Fotografia.

Arnault se gabava de ser o "19º membro" da Academia. De acordo com depoimentos, ele anunciava o nome dos futuros vencedores a seus amigos.

O caso revelou um funcionamento opaco da Academia - uma rica instituição privada fundada em 1786 com base no modelo da Academia francesa -, assim como seus conflitos de interesse, jogos de influência e a cultura do silêncio reinava no local.

Oito acadêmicos renunciaram de forma definitiva ou temporária, incluindo a secretária perpétua, Sara Danius. A atribuição do Nobel de Literatura de 2018 foi adiada para 2019, enquanto a instituição, em ruínas, tenta uma difícil reconstrução.

A Academia deve escolher em breve os novos integrantes, que decidirão os vencedores do Nobel de 2018 e 2019.

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