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Direitos da mulher

Viúva de Marielle Franco mantém viva a luta, seis meses após sua morte

Elisângela Leite/Anistia Internacional
Mônica Teresa Azeredo Benício, viúva de Marielle Franco Imagem: Elisângela Leite/Anistia Internacional

Da AFP, no Rio de Janeiro

12/09/2018 14h31

"Marielle continua sendo símbolo de esperança", disse à AFP Mônica Benício, viúva da vereadora Marielle Franco, assassinada há seis meses no Rio de Janeiro, em um caso que permanece sem resposta.

Na porta de entrada de sua pequena casa na Tijuca, zona norte do Rio, um adesivo: "Marielle presente". Estênceis com os rostos da pintora mexicana Frida Kahlo e da militante americana negra Angela Davis decoram a parede da sala de estar.

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"Antes, morávamos na favela onde nascemos, na Maré, mas nos mudamos em janeiro de 2017, quando Marielle começou seu mandato", conta Mônica, de 32 anos, que agora vive sozinha com seu cachorro. Confessa que quer se mudar novamente.

Enquanto isso, ela percorre o mundo para manter viva a memória de Marielle em eventos de promoção dos Direitos Humanos: Buenos Aires, Genebra, Lisboa, Londres, Atenas, Paris.

Sua agenda até o final de outubro está completa. E teve que interromper a realização de um mestrado.

"Ainda tem muita tristeza, mas estamos numa luta constante, então não tem muito tempo para fazer o luto", admitiu com uma voz grave e carregada de emoção.

A dor, seu impulso

Usando uma camiseta com a frase "Você importa para mim" e com os pés descalços, seu olhar determinado deixa transparecer a tristeza.

"A dor é uma certa forma de combustível para poder se manter na luta. É motivador ver pessoas que falam que nossa luta está inspirando, que Marielle continua sendo um símbolo de esperança", afirmou.

Sua vida mudou em 14 de março, quando sua companheira, de 38 anos, foi assassinada a tiros dentro de seu carro no bairro do Estácio junto com seu motorista Anderson Gomes, em um episódio que abalou o país.

As autoridades prometeram uma investigação rápida e transparente, mas passados seis meses não houve avanços significativos.

"É sempre: estamos trabalhando, estamos andando, mas não tem consistência", lamentou Mônica.

"Não só como esposa, que tem uma dor muito particular, mas como brasileira, ver um crime que foi atentado à democracia chegar a seis meses sem nenhum tipo de resposta", completou.

Para a viúva da vereadora, ter uma resposta ao crime é necessário "não por uma questão de vingança, mas por uma questão de justiça, para assegurar que ainda existe um Estado de direito no Brasil".

"Mais do que 'quem puxou o gatilho', ou 'quem pagou', o que mais me intriga nisso é 'por que Marielle?'".

Herança

Marielle Franco era fortemente comprometida com a luta contra o racismo e pelos direitos da comunidade LGBT. Mas também denunciava a violência policial e os abusos das milícias no Rio.


"É óbvio que aquela mulher, com aquele empoderamento todo, incomodava muita gente ali. Mas não consigo imaginar uma razão específica para a proporção do crime", afirma Mônica.

Vítima de ameaças, a agora ativista fez um pedido à Organização dos Estados Americanos (OEA) para pressionar o governo brasileiro e obter proteção policial, que recebe desde agosto.

A três semanas das eleições, Mônica fica feliz de ver a herança de Marielle na candidatura de outras mulheres negras. "O assassinato da Marielle tinha um recado claro de silenciar tudo que ela representava. (Mas essas mulheres) estão disputando espaços de poder nessas eleições".

E se emociona ao recordar a inauguração da escola que leva o nome de Marielle Franco, na favela da Maré. "Uma das meninas, de seis anos, estava com cabelo muito parecido com o da Marielle. Ela veio me contar que deixou o cabelo daquele jeito para ficar igual ao da Marielle, antes, ela alisava".

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