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Mães e filhos


Mães e filhos

Criança com Down é estrela no Instagram: projeto deve captar R$ 1 milhão

Arquivo Pessoal
Pepo: sucesso no Insta tem ajudado meninos diferentes, como ele Imagem: Arquivo Pessoal

Elisa Soupin

Colaboração para Universa

2019-06-25T04:00:00

25/06/2019 04h00

Mais um bebê fofo do Instagram, sendo fotografado e filmado pelos pais enquanto toma banho, ri e brinca com os irmãos. Mas, no feed desse bebê especial, também há momentos de sua terapia ocupacional, fisioterapia e fono. Pedro Zylberstajn, ou apenas Pepo Zylber, tem síndrome de Down, um aninho e 111 mil seguidores em sua conta na rede social.

Por trás do perfil de Pepo, estão o leiloeiro Henri Zylbertajn, 39 anos, e a professora Marina , 35 anos, pais do pequeno. Eles foram pegos de surpresa quando, um dia depois do nascimento do pequeno, souberam que o terceiro filho do casal tinha síndrome de Down. Seus filhos mais velhos têm 6 e 3 anos.

"A Carolina e o Felipe nasceram muito saudáveis. A Marina teve uma gravidez tranquila e dois partos normais. Na terceira gestação, fizemos todos os exames possíveis que foram indicados e nada foi detectado. Um dia após o nascimento do Pedro, que foi prematuro, a obstetra chamou na sala e deu a notícia que foi muito bombástica para a gente", conta Henri.

Arquivo Pessoal
A família de Pepo: muito amor Imagem: Arquivo Pessoal

"Foi muito difícil, até porque não costumamos lidar com pessoas com deficiência em sociedade. Havia muito desconhecimento mesmo, até mais meu do que da Marina. Ninguém escolhe ter um filho com deficiência. Perguntei muito a Deus porque ele tinha me dado um filho com Down se eu era uma pessoa boa. Hoje, pergunto a Deus porque ele não me deu um filho com Down antes. Ele é um presente e não um castigo", diz ele. Na conversa, fica evidente: é completamente apaixonado pelo caçula.

Olhar com naturalidade

Passado o susto inicial e cada vez mais mergulhados na paternidade de uma criança com deficiência, os pais queriam que as outras pessoas começassem a perceber seu filho da mesma maneira que eles o percebiam: com naturalidade.

"Tivemos medo que nossos amigos e familiares olhassem para ele como um doente ou que sentissem pena, por desconhecimento, não por maldade -- assim como havia acontecido conosco. Isso se confirmou quando a gente saía na rua ou ia ao clube com ele. As pessoas desviavam os olhares, não olhavam no olho, não comentavam. Existe um tabu", narra ele.

Desse sentimento de que, olhando mais de perto, entenderiam a normalidade de Pedro, veio a ideia de criar a conta no Instagram, para que familiares e pessoas próximas olhassem de outra forma para o garoto: a forma como seus pais o enxergavam.

"A gente queria mostrar que estava tudo bem e também informar. Mostrar o cotidiano, a vida, como era as sessões de fono, a terapia ocupacional, a fisioterapia. Mostrar para pessoas do nosso meio de relacionamento a experiência do Pedro. Mas, em cinco dias, ele já tinha 10 mil seguidores. Alcançou muito mais gente do que a gente podia imaginar", conta Henri, que começou a conta em junho, quando Pepo tinha quatro meses.

Em paralelo, o pai começou um trabalho de voluntariado na APAE, para apoiar pessoas com síndrome de Down.

"Lá, encontrei a realidade brasileira do tema, vi famílias pais que não tem a situação financeira de ter o tratamento que o Pepo tem. Vi, também, pessoas que não tinham nenhum caso de Down na família, mas estavam ali de forma voluntária acreditando em uma causa. Houve uma reunião para cortar projetos para os quais não havia mais verba", diz ele, que viu, naquele momento, o início de uma coisa maior.

Patrocínio bem-vindo

"Conforme o Instagram crescia, marcas começaram a nos procurar para parcerias. A gente dizia que não, que a gente não era influenciador. Mas comecei a pensar que poderia usar aquele dinheiro e aquelas parcerias para ajudar quem precisava, por exemplo a APAE", conta.

Foi assim que ele criou o projeto Serendipidade -- vocábulo do inglês que significa encontrar, sem procurar, ao acaso, algo maravilhoso -- em que conta com marcas e doações que se alinhem à causa da inclusão de pessoas deficientes nos ambientes, seja nas escolas, no convívio adulto. A ideia e o propósito da Serendipidade é trabalhar para que cada vez mais pessoas neuro atípicas convivam, vivam e compartilhem com pessoas típicas.

"A ideia é que as pessoas não precisem ter um filho com síndrome de Down, ou esperar 38 anos, no meu caso, ou 70, no caso do meu pai, para entender o que é inclusão. A gente trabalha para criar um convívio inclusivo na prática. É importante entender que a inclusão gera benefícios iguais para todas as partes, ela é importante para a pessoa com deficiência, mas igualmente importante para a sociedade", conta ele.

Ano passado, o projeto levantou mais de R$ 750 mil reais e, este ano, a expectativa é que passe de R$ 1 milhão.