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Mães e filhos

"Você vai matar seu filho": o que grávidas gordas escutam dos médicos

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A balança é inimiga da gravidez? Imagem: Getty Images

Camila Brunelli

Colaboração para Universa

15/10/2018 04h00

Quando Lorrayne Oliveira, hoje com 23 anos, passou em consulta com clínico-geral em Belo Horizonte (MG), tinha apenas 19 anos e foi diagnosticada com a Síndrome do Ovário Policístico (SOP), uma disfunção hormonal que provoca alterações no ciclo menstrual e pode causar dificuldade de engravidar.

“Por isso, me perguntaram se eu pretendia ter filho. Quando eu disse que sim, a médica disse que gordo não podia engravidar porque eu ia morrer e ia matar meu filho”, contou a gerente de supermercado mineira, de Belo Horizonte. “Fiquei muito chateada e até chorei. ”

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Na ginecologista, a mesma fala: “Diziam que grávida gorda não existe e que os remédios não iam conseguir controlar a minha pressão”, diz. Atualmente, Lorrayne cuida da saúde fazendo caminhadas leves de cerca de 40 minutos, todos os dias. Também cortou o refrigerante e está vendo uma nutróloga. Há um mês, parou de tomar o anticoncepcional para tentar engravidar. Contou só para o marido para aliviar a pressão, já que a família também não é das mais receptivas com a ideia: eles acham que se ela engravidar, ficará sem andar e não poderá ajudá-los no comércio que possuem. Imagina a pressão?

Balão gástrico para ajudar a engravidar

Emagrecer antes de engravidar é uma regra constante entre as mulheres gordas que aumenta ainda mais a tensão dessa fase. Especialista em transtornos alimentares, sobrepeso e obesidade, o psicólogo Weslley Carneiro conta que já recebeu pacientes que haviam até colocado balão gástrico com o intuito de emagrecer, com medo de se tornar gestante de risco.

“Essas mulheres lidam com sentimento de incompetência, de inaptidão, que se espalha por todos os âmbitos da sua vida. Já tiveram tantas tentativas frustradas de emagrecer, tanta dieta, remédio, tratamentos alternativos... Se veem totalmente perdidas porque têm o sonho de ser mãe e a sociedade diz que são culpadas por não conseguirem - quando na verdade isso é produto de vários fatores”, diz Carneiro.

O sonho da gravidez é possível

A fluminense de Itajaí Amanda de Oliveira já está próxima de ter seu sonho realizado. Aos 24 anos, está grávida de 32 semanas do Breno, e perdeu peso durante a gestação. Com 1,60 de altura, hoje ela pesa 106 kg, apesar de ter engravidado com 110. “Passei muito mal nos quatro primeiros meses, vomitei muito. Acabei perdendo peso”. Durante a gravidez, teve uma crise asmática e a pressão acabou subindo. Apesar de não saber se há alguma relação entre a gordura e o problema, Amanda se culpou. E só piorou quando ela voltou ao médico que já fazia seu acompanhamento. “Ele falou que eu deveria ter emagrecido antes de engravidar e, quando minha pressão subiu, me aterrorizou: disse que a culpa era minha e que eu ia ter diabetes gestacional.” Amanda está acima do peso, mas não é considerada obesa.

Ao mudar de obstetra, passou a se sentir mais confortável. Está controlando a pressão por meio de medicamentos e não desenvolveu diabetes gestacional. Alguns amigos e familiares ainda fazem comentários desagradáveis sobre o sobrepeso, principalmente porque ela demorou para conseguir saber o sexo do bebê. “Muita gente falava que não dava para ver por causa da gordura, mas a verdade é que ele estava de perna cruzada até os sete meses”, esclareceu. Ela contou que pretende ter outro filho daqui a cerca de cinco anos. “Mas quero emagrecer antes dessa vez. Fico me culpando, né”, disse ela, por conta da pressão alta.

Gestação com acompanhamento especializado

A médica Ana Luisa Vilela passou por uma cirurgia bariátrica que deu errado, há 12 anos. Além de ter ficado em coma por três dias, passou por problemas de saúde decorrentes da cirurgia e acabou emagrecendo, mas engordou de novo. Depois de começar a estudar nutrição, emagreceu 60 quilos e já estava magra quando engravidou sem querer, aos 33 anos. “Eu estava fazendo residência em nutrição clínica e me descobri hipoglicêmica, uma característica que não era tão evidente quando eu era obesa”. Ana contou que essa era uma das causas da sua obesidade: com a glicemia baixa, ela se sentia mal e achava que era fome. 

Depois que ganhou Joaquim, foi estudar endocrinologia. Como profissional da área, aconselha a perda de peso antes de planejar a gravidez. “Se engravidar sem querer, é importante segurar o ganho de peso durante a gestação. Gestante pode, sim, fazer dieta. Essa história que grávida tem que comer por dois é mentira: ela tem que ingerir nutrientes necessários para ela e monitorar a saúde e a nutrição do feto. ” Ana ganhou apenas cinco quilos na sua gestação - Joaquim nasceu com três. O ideal é que se ganhe até nove quilos durante a gravidez, um por mês - mas não no caso das mulheres obesas. “Depende do peso inicial dela e da nutrição das bebês.” Trata-se de um consenso entre especialistas em gestação: mulheres acima do peso têm de restringir muito mais o ganho de peso durante o período.

Obesidade não é um impeditivo, mas é um fator de risco

O obstetra do Hospital Sírio Libanês, Alexandre Pupo, disse que, ao receber uma paciente acima do peso que quer ser mãe, primeiro faz avaliação. “Se ela já for obesa e engravidar, precisamos avaliar o grau de obesidade e qual a idade - toda gravidez de moças de acima de 35 anos ainda é considerada de risco - e com isso vamos estabelecer quais os perigos a que aquela gestante está exposta”, ponderou. “A obesidade não é um impeditivo para engravidar, mas ela tem de ter um bom acompanhamento e seguir fielmente as orientações do médico. Existe a gorda saudável e gorda que está doente. A gordura, em si, é um fator de risco, mas não é certeza que haverá algum problema".

Sobre a frase gordofóbica que dá título à matéria, uma resposta: um acompanhamento médico bem feito, seguir todas as recomendações médicas e não ganhar mais peso durante a gravidez vai ajudá-la a não correr riscos e ter o filho de maneira saudável. Olhar para a paciente ou para qualquer mulher gorda que esteja tentando engravidar e dizer que o físico dela a impede de realizar esse sonho sem saber se os exames estão em ordem, por exemplo, não passa de preconceito. E de crueldade.  

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