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Três vezes mais forte

Youse
Outubro Rosa Youse Imagem: Youse

Por Youse

16/10/2018 17h35

Em 2006, Iraci Tavares tinha 40 anos, era advogada e mãe de um menino de três anos. Sua rotina era corrida, dividindo o tempo entre a casa e o trabalho. Porém, em uma consulta de rotina com seu mastologista, recebeu o diagnóstico de que poderia ter um nódulo em seu seio esquerdo. Tudo mudou.

A princípio, parecia ser um procedimento simples. O médico a encaminhou para uma análise chamada mamotomia, para verificar se o nódulo poderia ser maligno. “Eu planejava ter um segundo filho, porém o exame necessitava de radiação. Não sabia se estava grávida e optei por fazer o procedimento sem correr esse risco”, diz ela.

“Quando voltei, meu médico me deu a notícia sem rodeios. A mamotomia não foi 100% efetiva pela falta de radiação e, ao realizar a cirurgia, a situação era outra”.

Iraci teria que passar por outra cirurgia, a chamada mastectomia radical da mama esquerda. “Meu marido estava comigo e o nosso mundo caiu. Mas só pensava no meu filho. Perguntei ao médico se eu iria viver e ele disse que sim. Então levantei e fui em frente. Devido às constantes anestesias, perdi o bebê, eu estava grávida de poucos dias”.

Contar para a família foi uma fase difícil. Avisou aos mais próximos o que estava acontecendo e logo em seguida já dizia que ficaria tudo bem. “A tendência é a gente se fechar, o que é errado, na época não se falava nada como hoje. Recebi muito carinho e fazia muitas brincadeiras comigo mesma, dizia que colocaria silicone depois!”

Aprendizado radical

Ela foi mesmo em frente. A mastectomia foi um sucesso. Saiu da cirurgia já com o expansor para esticar a pele, para depois colocar silicone. Os médicos estavam animados, seu cirurgião plástico, motivado.

“Também mudei o foco, fui atrás de meus direitos, para ter a sensação de que algo bom havia acontecido diante da situação ruim, sempre busquei a solução.”

O processo de recuperação foi doloroso, deveria encher o expansor semanalmente para esticar a pele. “Colocava um lenço no braço para ninguém chegar muito perto do meu seio e tentei levar uma vida normal. Voltei a trabalhar, fui fazer dança do ventre, o que ajudou muito na minha autoestima. Meu marido sempre me apoiou. A família é importante”.

De volta à luta

Dez anos depois, em 2016, apareceram mais dois nódulos perto das axilas, do mesmo lado da mastectomia. “Dessa vez, foi tudo bem na cirurgia, mas o resultado foi maligno. Tive que fazer quimioterapia oral, com Tamoxifeno, foi bem tranquilo.”

Em 2017, apareceram mais dois nódulos malignos. Na cirurgia, retirou cinco gânglios comprometidos e dois pequenos tumores. Devido a esse diagnóstico, Iraci precisou fazer quimioterapia venosa.

“Fiquei careca, não quis usar peruca, usei turbante, pois me sentia melhor, meu marido me incentivava a comprar vários, era até engraçado.”

Compartilhando o aprendizado

Nessa terceira vez, como fazia a quimioterapia no hospital, teve contato com outras mulheres que também enfrentaram o câncer de mama. “Tive muito carinho das enfermeiras, aulas de maquiagem, colocação de lenços. As pessoas falavam sobre os problemas e você não se sentia sozinha e nem vítima, isso foi muito legal”.

Ira continua trabalhando como advogada e decidiu compartilhar seu aprendizado para ajudar outras mulheres. Ela fala sobre uma cartilha de direitos de pessoas portadoras de câncer para que todas possam aprender os benefícios que têm direito. “O câncer de mama permite comprar carro com isenção de IPVA, rodízio, desconto em ICMS e IPI, além de vaga em estacionamento. Também retira o FGTS e PIS, da pessoa portadora e do cônjuge”, explica.

Foram 10 anos de transformações intensas. Nada havia a preparado para tudo isso. Mas Iraci vê tudo como parte de seu crescimento como mulher. “Desde de 2006, estou me redescobrindo, mas esta terceira vez foi mais forte. Estou aprendendo a curtir cada minuto de minha vida. A gratidão entrou no meu dicionário”.

“É um processo de mudança constante. Agora eu até tenho um lema: o que não te derruba, te fortalece.”

Este é um conteúdo de autoria da YOUSE e não faz parte do conteúdo jornalístico do UOL.