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Crônica: Perigosíssimo alicate de unha quase me custa o visto americano

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Judith Brito

Opiniões

A Universa abre espaço para pessoas de diferentes áreas de atuação escreverem sobre comportamento, questões de relacionamento, sexo e outros pontos da vida cotidiana. Os textos de cada um dos autores não refletem, necessariamente, a opinião do UOL.

Colaboração para Universa

05/05/2018 04h00

No dia em que completei 60 anos, compareci à entrevista pré-agendada para renovação do meu visto no Consulado Americano, em São Paulo. Em sendo segunda-feira e véspera do feriado de Primeiro de Maio, imaginei enfrentar pouco trânsito e menos fila no território ianque.

No caminho – de fato, livre –, lembrei-me da primeira vez em que me candidatei ao visto para ir a um congresso em Washington. Tinha vinte e poucos anos. Entreguei a um atendente do Consulado o passaporte e a papelada – onde descrevera previamente as intenções de tão mísera criatura ao pedir para visitar o mais importante lugar do planeta -, e entrei na fila para o guichê onde seria inquirida. A entrevistadora era uma gringa típica, grande e muito branca. Tinha cara de brava, como condiz a alguém com poder de autorizar – ou não – a entrada de um ser inferior ao paraíso.

Sem me olhar, a autoridade perguntou em altos brados, com sotaque carregado: “Mas seu saláriou é só issou???”. Todas as pessoas de todas as filas devem ter olhado para mim, com muita pena. Certamente pensaram: só pode ser uma pobre coitada querendo imigrar ilegalmente para tentar a sorte nos Esteites. Fervendo por dentro, minha vontade era responder: não se preocupe, não tenho a menor vontade de ficar por lá! Mas me comportei e expliquei que recebera convite para apresentar um trabalho num congresso, e que estadia e passagens – de ida E DE VOLTA – foram pagas pela instituição americana.

Desta vez, aos 60 anos e vários vistos no passaporte, imaginei que seria mais fácil. Foi mesmo. Mas a experiência continua sendo surreal. O local fervilhava de gente, a começar pelos muitos “prestadores de serviços” na rua, que cobram para facilitar a vida dos incautos. Por exemplo: não se pode entrar com celular no Consulado, mesmo desligado. Por isso, há vários locais de guarda-volumes, na mesma rua, que cobram módicos quinze reais para acondicionar o aparelho em nichos com chaves.

Fui para a primeira fila e antevi que, pela quantidade de pessoas entrando, passaria ali algumas horas. Mas eis que, na triagem, uma simpática mocinha notou a data de meu nascimento, deu-me efusivos parabéns e mandou-me seguir pela linha destinada aos idosos. Que surpresa boa! Por esse início, achei que tudo seria fácil. Mas em seguida, mesmo eu, doce velhinha, seria tratada com o rigor destinado aos terroristas.

Cada etapa tem seguranças provavelmente treinados em Guantánamo. Nós, possíveis terroristas (mesmo os da terceira idade), somos tratados como se deve, com ordens ríspidas, de forma a não cometermos falhas graves, como sair da formação de nossa tropa, digo, de nossa fila.

Mesmo tentando cumprir tudo à risca, fui pega no raio-X por algo que levava na bolsa. Pensei com meus botões: será que esqueci minha submetralhadora AK-47 na bolsa? Não, era um perigoso alicate de cutícula na nécessaire. Pois fui imediatamente conduzida por um segurança ... para a rua! Tentei argumentar: eu jogo no lixo essa porcaria. Mas o elemento foi irredutível: não temos lixo, senhora! Na calçada, já havia solícitos prestadores de serviço que guardam alicates de cutícula para os terroristas. Voltei para o início...

Felizmente, após repetir todo o processo (agora sem minha perigosa arma) o entrevistador, ser iluminado – e pelo pouco sotaque, com muitos anos em Pindorama – foi gentil, e quase não me fez perguntas. Agora sou novamente uma feliz portadora de passaporte carimbado, com acesso à Terra de Tio Sam!

Judith Brito é Superintendente do Grupo Folha e autora do livro “Mãe é Mãe: Experiências da Maternidade na Juventude e na Maturidade”

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