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Opinião: Teremos um presidente gay algum dia no Brasil?

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Imagem: Getty Images

Por mais frisson que as disputas presidenciais costumem provocar, o papel do presidente da república tende a ser mais simbólico do que efetivamente causador de grandes mudanças. É essa dimensão simbólica da figura do presidente que causou a comoção pública que houve nos Estados Unidos na eleição de Barack Obama, em 2008, ou na campanha de Hillary Clinton em 2016: as minorias celebram intensamente as vitórias e sofrem duramente as derrotas de quando um membro seu concorre a um cargo político tão alto.

Aqui, no Brasil, a figura do presidente também é mais alegórica do que efetiva: apesar do grande poder conferido ao cargo, o presidente da república tende a ser um formalizador das visões políticas e projetos do seu partido. Além disso, o presidente procura ser uma figura que represente a união do povo do país --coisa bem difícil no Brasil de atualmente-- e seu cargo, por sua própria existência, é um símbolo da expressão democrática de seu povo.

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O Brasil, apesar de sua democracia jovem e (cada vez mais) frágil, já elegeu figuras que, talvez, sofressem mais preconceito em outros países. Já elegemos Lula, um presidente sem educação superior formal; Dilma, uma mulher, e Juscelino Kubitschek, único membro da comunidade cigana a chegar ao cargo de presidente em todo o mundo.

O que, então, impediria um homossexual de ser eleito ao posto mais alto do nosso governo? Alguns pontos trariam mais dificuldade:

A divisão política do país: no atual momento de tensão política, um candidato gay à presidência seria visto por grande parte da população como um extremista de esquerda --ainda que suas propostas econômicas e sociais fossem de direita, essa parte da população provavelmente o rejeitaria.

A dificuldade de aceitar uma minoria em uma posição de poder: mesmo com um governo --de acordo com os números de aprovação-- menos impopular do que o de Michel Temer, Dilma Rousseff sofreu diversos ataques machistas durante a sua campanha. Ser de um grupo historicamente menos poderoso poderia ser explorado como uma fraqueza pelos seus adversários políticos, e uma grande parte da população concordaria.

A falta de políticos expressivos assumidamente LGBT: ainda que haja exemplos nos âmbitos municipais e estaduais pelo Brasil, o único representante da comunidade gay no Congresso hoje é Jean Wyllys, que sofre forte rejeição de grande parte da sociedade. Não há políticos expressivos a nível nacional que tenham uma pauta LGBT forte e que possam ser candidatos à presidência.

Mas, além de todos esses fatores, o maior impeditivo para a eleição (ou mesmo a candidatura) de um político gay para a presidência da república ainda é o preconceito de grande parte da população. A prova disso?

Repare nos comentários deste texto. As mesmas pessoas que costumam dizer que não há necessidade de “vitimismo” da população homossexual, por não haver preconceito, estarão falando que não há necessidade de eleger políticos gays e que a própria ideia disso acontecer é um absurdo. Essa contradição é a prova do preconceito que ainda cerca a comunidade gay.

É um absurdo desejar um gay na presidência do país? Talvez seja. Mas espero que seja um absurdo que eu veja ainda no decorrer da minha vida.

*Flávio Voight é psicólogo

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