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Opinião: eles reclamam que "agora tudo é coisa de gay"; é mesmo, ainda bem

Getty Images
Quem não é da comunidade LGBT não sabe um monte de coisas Imagem: Getty Images

Flávio Voight*

Colaboração para o UOL

24/01/2018 04h00

Basta ler os comentários nas redes sociais e em qualquer site de notícias --não interessa se o texto é sobre homossexualidade ou não-- para encontrar alguém reclamando que a comunidade gay está pedindo demais. São coisas como: "Agora tudo é coisa de gay"; "Toda novela só fala de gay agora"; “Esses gays fazem de tudo por atenção”. 

Até certo ponto, os comentaristas têm razão: a comunidade LGBT nunca foi tão divulgada quanto agora. Temos representantes nas novelas, no congresso nacional, no rádio... Direitos? Conquistamos o casamento, a adoção está facilitada, algumas coisas estão muito melhores do que já foram. Então, o que a comunidade LGBT ainda quer? Por que ainda briga politicamente por espaço?

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Posso tirar da cartola uma série de estatísticas sobre o aumento da violência física contra homossexuais no último ano: segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), o número de homicídios contra homossexuais cresceu 30% em 2017, em relação ao ano anterior), por exemplo. Mas para muita gente isso não vai bastar: dirão que a violência no Brasil é um problema generalizado e que todos sofremos com ela em algum nível.

Sem contar as grandes violências, num nível individual, ainda faz sentido uma luta pela afirmação da nossa identidade? Explico: não é qualquer coisa que me tira do estado tranquilo em que eu costumo atender no meu consultório, mas nesse dia as minhas lágrimas apareceram tanto quanto a de quem me contava a sua história. Minha paciente, uma moça, falava de como sentia falta da família.

Ninguém estava morto nem havia uma grande distância a separando de seus entes queridos. Todos os seus tios e tias estavam vivos e a poucos quilômetros dali. Mas ela sentia falta deles porque precisou se afastar. Contava ela que, ao se assumir, recebeu um pedido da mãe para que ela não "perturbasse" seus tios e tias contando que está morando sozinha e que está num relacionamento com outra mulher.

"Eles não vão aguentar", disse a mãe, "são tão velhinhos, não compensa perturbá-los com isso."

"Isso", que a mãe da minha paciente tinha dito, era ela mesma. Ao ter uma identidade diferente, ela passou a ser um risco para a família. Com medo de causar dores, ela se afastou. Sua cruz, desde então, foi lidar com as saudades.

"Eu sei que eles também sentem falta de mim", disse ela, "e me dói... Eles estão envelhecendo e não vão ficar aqui por muito tempo. E eu não consigo mentir, não quero encontrá-los e fingir que eu tenho uma vida que eu não tenho."

Foi nessa hora que ela caiu no choro --e eu também. Essa sensação de se afastar para não criar problemas é conhecida por quase todos os homossexuais.

Estudos indicam que membros da comunidade LGBT costumam apresentar sintomas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático mesmo quando não são vítimas de agressões físicas ou ataques verbais intensos.

A convivência constante com o medo e com a necessidade de cautela ao conviver com novas pessoas é tão pesada que apenas esse estresse constante basta para criar dificuldades psicológicas que, entre outras coisas, fazem o índice de tentativas de suicídio entre a comunidade LGBT ser praticamente o dobro do que na sociedade em geral.

São as pequenas coisas que pesam. Quem não é da comunidade LGBT não sabe o que é pensar duas vezes antes de segurar a mão no companheiro na rua.

Não sabe o que é monitorar constantemente seus trejeitos naturais em certos ambientes, por medo de perder um emprego ou de ser vítima de piadas.

Não conhece aquele olhar esquisito que vem de alguém que faz questão de te dizer que "super te aceita", mas te monitora cuidadosamente toda vez que você está com uma criança no colo.

Não sente o desconforto de estar tomando uma cerveja no bar enquanto a mesa do lado faz piadas e "xinga" um ao outro de "viado".

Nunca fez check-in no hotel com o parceiro e teve a reserva "corrigida" para um quarto com duas camas de solteiro.

São violências que não vão arrancar os dentes de ninguém --ainda que essas ainda existam, e matem--, mas que privam muita gente de afetos importantes e que qualquer pessoa costuma tomar por certeza, e são justamente esses afetos que conferem a uma pessoa a força de se sentir amada e segura diante da adversidade.

Por isso ainda é essencial uma comunidade unida e forte, muito além dos benefícios políticos que isso pode trazer: precisamos de um senso de companheirismo e união que fortaleça e crie vínculos de afeto entre nós, para diminuir a solidão que acompanha a cada um de nós.

Por isso os gritos de guerra são sempre de orgulho e dignidade. É preciso muita dignidade para pagar o preço de ser quem é, mesmo quando o armário parece confortável. Para, mesmo com as pequenas e constantes violências sofridas, ainda erguer a cabeça e falar: "Sou dono da minha vida. Não me calo. Vou viver sem pedir desculpas."

É motivo de orgulho procurar viver uma vida honesta quando tudo ao nosso redor parece pedir que a gente se esconda. Essa luta por dignidade, tão solitária e árdua, não para.

A luta pela dignidade é a dignidade em si.

*Flávio Voight é psicólogo

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