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Número de mulheres eleitas foi abaixo do esperado, avalia especialista

A vereadora Sâmia Bomfim (PSOL) foi eleita para o cargo de deputado federal neste domingo  - Marcus Leoni/Folhapress
A vereadora Sâmia Bomfim (PSOL) foi eleita para o cargo de deputado federal neste domingo Imagem: Marcus Leoni/Folhapress

Luiza Souto e Marcos Candido

Da Universa

08/10/2018 18h41

A representatividade feminina na Câmara dos Deputados, em Brasília, aumentou de 10% para 15% este ano, em comparação com as eleições de 2014. Porém, na avaliação de especialistas, essa quantidade ainda baixa -- e deixa o país “numa situação vergonhosa”, com participação menor do que a de países como a Bolívia. Lá, 50% da Câmara é composta por mulheres.

Falando somente no número de deputadas federais, nesse domingo (7), durante o primeiro turno das eleições, foram escolhidas 77 candidatas, contra 51 em 2014, um aumento de 51% das mulheres na Câmara, em Brasília. Entre as deputadas estaduais e distritais, foram 161 eleitas, um aumento de 35% em relação a 2014.

Apesar disso, há estados onde deputadas federais não foram eleitas. É o caso do Sergipe, Maranhão e Amazonas. No Pará, apenas Elcione, do MDB, foi eleita. Já no Ceará, a única mulher eleita como deputada federal foi Luizziane, do PT. Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Alagoas também elegeram apenas uma mulher cada. Em compensação, São Paulo e Rio de Janeiro elegeram dez deputadas federais cada, maior número do País.

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Apesar de novas regras, nada de resultados

Considerando que neste ano o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) decidiu que 30% do fundo partidário foi reservado para candidatura de mulheres, e que essas têm que somar 30% nos partidos e coligações, o crescimento não é expressivo na avaliação da cientista política Hannah Maruci, pesquisadora do GEPÔ da USP (Grupo de Estudos de Gênero e Política da Universidade de São Paulo).

“A regra para se aumentar a participação das mulheres está correta, mas os partidos não vêm cumprindo. Esse investimento não foi aplicado proporcionalmente. Pode-se, por exemplo, redirecionar a verba para uma única candidata. O TSE precisa especificar mais. Aí, sim, teríamos um número expressivo de mulheres eleitas”, observa Hannah.

De um total de 192 países, o Brasil ocupa a 152ª posição no ranking de representatividade feminina na Câmara dos Deputados, ficando atrás de nações como Senegal, Etiópia e Equador. Com as regras atuais, para Hannah, o correto seria aumentar em pelo menos 30% nosso número: “A gente está abaixo de países árabes!”, alerta.

No Senado, foram sete eleitas nesse domingo (7), formando 12 senadoras em um total de 81 lugares. “Historicamente, o Senado tem um caráter mais conservador, com pouca renovação se comparada ao Congresso. É lá onde predominam os mais velhos e os homens”, avalia a especialista.

Primeira trans e herdeiras de Marielle

Nas Câmaras estaduais foram eleitas mulheres com perfis ideológicos distintos. São Paulo foi o estado que mais elegeu mulheres ao cargo de deputada estadual, com 17 cadeiras.

Entre as que entraram para a câmara paulista estão nomes como a de Erica Malunguinho, do PSOL, a primeira trans da história da Assembleia Legislativa de São Paulo. Ainda do PSOL foram eleitas Mônica da Bancada Ativista e Isa Penna.

E, na esteira da influência deixada pela vereadora Marielle Franco, assassinada em março deste ano, o partido de esquerda elegeu Mônica Francisco como deputada estadual no Rio.

Ala conservadora

Também foi formada em São Paulo uma ala que reflete um voto mais conservador, que fez da professora e advogada Janaína Paschoal (PSL) a deputada estadual mais votada da história no estado, com mais de dois milhões de votos. Ela foi a autora do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

No País, cinco mulheres se elegeram usando o título de delegada para o posto estadual. Três usaram o título de professora.

“Vivemos uma onda completamente conservadora. E essas pessoas, mais conservadoras, não surgiram hoje. Por um lado, de alguma forma, se sentiam ameaçadas, mas por outro, foram legitimadas a mostrar seu preconceito. Então, quando vem um candidato como Bolsonaro, essas pessoas que guardavam para si sua opinião se pronunciaram. Esses são os valores de grande parte da população”.

Estratégia para barrar Bolsonaro

O Poder Executivo segue sem uma representante feminina forte. As candidatas à Presidência Marina Silva (Rede) e Vera Lucia (PSTU) tiveram porcentagens de votos de 1% e 0,05%, respectivamente. Mas, na avaliação de Hannah, não se pode falar aqui que houve uma dificuldade para a eleitora mulher votar numa candidata.

“Foi uma eleição bastante atípica. Entrou aí uma questão de se preferir barrar o Bolsonaro a escolher a candidatura que representasse a mulher. E não é porque é mulher que a pessoa vai me representar. Tem uma ideologia, plano e posicionamento. Houve aí uma estratégia de barrar esse candidato.”